Há uns 20 anos comprei um terreno num condomínio que estava sendo inaugurado. Chamei Paulo Mendes da Rocha e lhe pedi que me fizesse uma casa para fins de semana.
Ele riu e me disse: "Você está louca? Você é uma intelectual e deveria comprar um apartamento na avenida São Luís, encher de livros, colocar uma poltrona no meio da sala e ali ficar..."
"Você sabe o que é ter uma casa num condomínio? Estão cheias de babás, crianças mal-educadas e cães ferozes…"
"Primeiro você vai passar a semana inteira tentando convencer amigos a visitar, sendo que alguns irão uma vez e nunca mais, pois detestam ar puro. Você acha que pode servir uma pizza e tudo bem?"
"Não, vai ter que aprender a cozinhar leitões à pururuca, feijoadas, além de ter que mandar consertar a geladeira, o ar-condicionado, entre outros probleminhas."
"Mas finalmente você consegue juntar um grupo que vai se divertir muito, comer à vontade, beber muita vodca com sorvete de limão e voltar à noite, totalmente bêbados... Vão dar uma trombada, morrer, e você vai ficar o resto da vida com culpa.”
No dia seguinte, o terreno estava à venda. E o meu apartamento, que não fica na São Luís, está cheio de livros, com uma poltrona no meio.
A filosofia de Paulo Mendes da Rocha sobre o morar era tão elegante quanto sua arquitetura.
Ele era (e ainda é) uma pessoa muito inteligente. Me lembro de em uma palestra ele explicar porque não dirigia e só andava de taxi: "imagina, dirigir, atropelar e matar alguém, por uma distração, e levar esta culpa pelo resto da vida". Mudou minha relação com o automóvel...